sexta-feira, 22 de abril de 2011

Guardando a Paixão


Esse ano ,a quarta feira foi dia de se despedir de quem ia viajar, já que o feriado juntou Tiradentes, Semana Santa, São Jorge.

O dia do índio na véspera já tinha passado em brancas nuvens, mesmo com sangue vermelho dele correndo nas veias.

Daí que a gente dizia "Bom feriado e boa Páscoa". Falei isso para várias pessoas, mas a cada vez que falava me dava um estranhamento.

Era como se assistisse a um filme começando pelo final. E nessa, ignorasse toda a trama e com ela, todo o sentido. Como se não digerisse esse momento especial da Semana Santa.
Talvez seja a tal religiosidade, talvez influência de "Homens e Deuses" que assisti ontem.

Pra mim 6ª feira da Paixão sempre foi um dia reflexivo.

E descobri que essa reflexão me faz falta. Um tempo de silêncio e recolhimento para tentar digerir parte do que fica entalado ao abrir o jornal, ouvir as notícias, estar no mundo.

Quando era menina, era dia de não ouvir música, de usar cores discretas, de estar em casa, dar um tempo. Geralmente chovia na 6ª feira da Paixão. Fácil lembrar isso, porque feriado com chuva marca.

E na primeira vez que fez sol, marcou também, pois fomos à praia na Barra, dia de mar estranho no qual um colega de escola, xará de meu pai, se afogou. Ainda bem que não morreu.

6ª feira da Paixão parecia um dia interminável.

Pois descobri que esse tempo me faz falta. Uma meia trava na velocidade, no consumo, na busca pelo prazer, na overdose de informação. Se não precisasse desabafar, ordenar esse sentimento, nem blog publicava. Era dia sem jornal...

Quase nada parou. Hoje em dia não há tempo. Nem pra sentir.
Especialmente se o que se sente é o vazio. E a esperança de que ele seja novamente preenchido no domingo de renascimento.

Sinto que preciso desse tempo.

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sexta-feira, 2 de abril de 2010

Sexta-feira da Paixão




Quando era menina, a Sexta-feira da Paixão era um dia estranhíssimo, no qual tudo estava fechado, sombrio, silencioso, roxo.

No Grajaú não se ouvia um rádio, uma música ao andar pelas ruas. Era possível ver algumas senhorinhas com véus escuros cobrindo o rosto e terço na mão. Até o futebol dos meninos era meio tímido, discreto, sem a gritaria habitual.
Sempre chovia na Sexta-feira da Paixão.

A primeira vez que me lembro de fazer sol, eu já estava no fim do ginásio, como se chamava então o que hoje é o "segundo segmento do primeiro grau".

Fomos à praia na Barra da Tijuca. Era dia de mar forte e correnteza.
Mas a praia estava uma delícia.

Uma sensação de heresia se fortaleceu após um colega se afogar e ser levado pela correnteza. Ele tinha o mesmo nome de meu pai. Por sorte se salvou. Depois disso, passamos a ir à praia com um pouco mais de cuidado, por via das dúvidas, se fazia sol num dia como esse.


E à noite a emoção ao ver no Jornal Nacional as imagens da Paixão de Cristo em Nova Jerusalém, os tapetes de Flores de Minas Gerais, as procissões, o movimento no mundo.

Dormir pensando se alguém malharia o Judas perto de casa, mesmo sem entender muito o sentido cristão disso. Para ver algum Judas malhado, sempre era necessário convencer meu pai ou minha mãe a dar uma volta de carro pelo bairro, e lá longe, já em seus limites, encontrávamos alguns em postes, bem perto do Andaraí.

Era um alívio quando acabava a 6ª feira da Paixão.

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